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Testemunhos GEG | Quando ser engenheiro implica fazer uma meia maratona

14 Março, 2021

No GEG, ser engenheiro vai muito além da aplicação das nossas competências de engenharia, há outras competências que se revelam importantes. Ser engenheiro no GEG revela-se também na forma como nos entregamos aos nossos projetos.

 

O testemunho do Pedro é uma das provas de que para prestar serviços de engenharia são necessárias outras competências que podem, à primeira vista, não parecer vitais, mas que vale a pena não as descartar. Destacam-se a necessidade de improviso, flexibilidade e capacidade de adaptação, a resolução de problemas, a comunicação e negociação, mas também a forma física.


“O objetivo era projetar uma rede viária ou ferroviária para uma instalação industrial da Soporcel / Navigator em Moçambique.  Essa rede poderia incluir troços de vias já existentes ou a criação de novas estradas, ou linhas-férreas em sítios remotos.

De forma a avaliarmos melhor o problema, e como a primeira etapa do nosso trabalho, tivemos que fazer visitas técnicas aos locais da potencial intervenção. Analisou-se a informação existente, preparou-se um plano, formou-se uma equipa técnica de três engenheiros do GEG, acompanhada pelo responsável técnico pelo projecto na Soporcel / Navigator, para realização dessas visitas, e partimos para a inspeção dos locais, em Moçambique.

Foram cerca de 10 dias difíceis, por caminhos bastante acidentados ou de floresta “virgens” e onde muitas vezes não existiam estradas ou acessos. Num dos primeiros dias na província da Zambézia foi quando aconteceu este episódio marcante desta viagem.

Estávamos em pleno período de cheias em Moçambique e já diversas províncias costeiras estavam inundadas pelos rios principais do país. Era o último dia em Quelimane, a capital da Zambézia. Íamos partir para o Gurué, aproveitando para inspecionar alguns sítios importantes para o projecto.

Na hora de saída de Quelimane, a água já dava pelo meio das rodas do veículo todo-terreno que tínhamos alugado (dias mais tarde, quando descemos do Gurué, ficamos a saber que algumas estradas que tínhamos utilizado tinham aluído com as chuvas fortes).

cidade inundada - GEG

Precisávamos de ir inspecionar uma zona florestal onde poderia vir a ser instalado parte do complexo industrial. Essa zona florestal tinha apenas um caminho, praticamente inexistente, completamente tomado pela vegetação.

Com base no GPS de mão que tínhamos (não havia Google Maps disponível… Nem sequer estrada disponível…) seguimos caminho e fomos parar a um rio.

O rio parecia relativamente pequeno e pouco fundo. Tinha também alguns troncos de madeira, que provavelmente alguém colocou para passar algum veículo sobre o rio, numa espécie de ponte artesanal. O problema é que estava a chover intensamente e o rio devia estar bem mais alto do que o habitual.

Decidimos avançar na mesma, alinhando as rodas com os troncos. O problema é que 10 segundos depois apercebemo-nos que as rodas não estavam alinhadas com os troncos… O carro enfiou-se dentro de água! Sai do carro e atirei-me para o rio, dando a água pela cintura. Não era muito fundo, mas a água estava a subir e estávamos no meio do nada. Os telemóveis sem rede alguma…

Pensámos em usar o guincho deste tipo de carros para agarrar a uma árvore na outra margem e puxar o carro para fora do rio. Depois de andar às apalpadelas na frente do carro, apercebemo-nos que alugamos o único todo terreno de Moçambique que não vinha equipado com um guincho… 

Do nada e de repente, aparece um jovem local, acompanhado da sua cadela – literalmente do nada! Não havia casas, estradas, nada…

Meti conversa com ele e pedi-lhe ajuda. Foi incansável! Usou a catana para cortar troncos e para escavar debaixo do nosso carro. Mas o raio do carro não queria mesmo sair…

Perguntei-lhe se ele era dali de perto e ele disse que sim. Eu olhei para o GPS e vi um cruzamento de caminhos florestais a 5 km e pensei: “5 km a andar é uma hora, a correr devemos conseguir fazer menos tempo”. Perguntei-lhe se eles tinham lá na aldeia algum tractor que pudesse tirar o carro do rio e ele disse que sim – o dos madeireiros. Perfeito.

Solidariedade No Meio Da Selva

Deixamos dois elementos da equipa com o carro e fomos os outros dois (claramente em melhor forma) com o jovem, de seu nome Luís.

As primeiras centenas de metros deram para perceber como ia ser o caminho: corta-mato autêntico, animais desconhecidos, felizmente quase todos inofensivos, riachos escondidos… O Luís ia batendo com a catana nos troncos ocos caídos por causa das cobras, para as afastar. A cadela corria à frente, toda animada. Ainda assim saltamos sobre uma cobra que eu não vi (mas saltei na mesma porque o José Cunha à minha frente saltou!).

Fui logo perguntar ao Luís se era venenosa. Ele não percebeu a pergunta. Segue o diálogo com o Luís:

– Luís, aquela cobra é venenosa?

– Não percebo. O que é venenosa?

– Se mata, quando morde?

– Mata!

– E vocês, o que fazem?

– Vamos no curandeiro.

– Porra! Corre Zé!

Continuamos a correr o possível, com botas de mato e calças de tropa, todas encharcadas e, obviamente pesadas. Começamos a marchar em vez de correr. 

Felizmente a intersecção das estradas estava a aparecer no GPS. Perguntei ao Luís se já estávamos quase. E ele riu-se… “Não! Ainda falta!”. 

E chegamos à intersecção das estradas… que não existia… só mesmo no GPS. Ou seja, a aldeia ainda era mais longe. Bom, não havia nada a fazer… Lá fomos nós atrás do Luís até à aldeia dele.

Muito tempo depois, chegamos à aldeia, completamente estafados. O Luís foi procurar o madeireiro do tractor. Tinha ido embora de manhã, para uma feira em Mocuba…

Já sem grandes argumentos para fazer o que quer que fosse, e sem conseguir contactar os colegas que tinham ficado no carro, decidi arriscar e perguntar ao Luís se tinha alguns amigos com enxadas e pás que pudessem ir dar uma ajuda.

foto do projeto GEG - carro inundado

O Luís, sempre muito prestável, disse que ia procurar. E apareceu passado 10 minutos com cerca de 15 jovens, todos muito sorridentes. Começamos então a regressar ao carro, a ritmos distintos face à diferença de idades e forma física, o que fez com que os jovens chegassem cerca de quinze minutos antes de nós. 

Projeto GEG moçambique

Adorava estar no carro quando apareceram 15 desconhecidos aos gritos com enxadas e pás. Nós tínhamos ficado encarregues de conseguir um trator, não uma pandilha colorida de desconhecidos! Infelizmente só me posso contentar com os relatos de quem lá ficou.

Entretanto quando cheguei ao carro, o Domingos já tinha negociado com os jovens um preço para retirar o carro do rio (sim, não foi de graça, mas os rapazes bem o mereceram pois foram incansáveis!).

Começamos a escavar e a tirar entulho da parte inferior do carro. Depois, já com tração nas rodas de trás, e com 20 pessoas a empurrar, o carro lá saiu de marcha-atrás!

foto do projeto GEG

De seguida, vinha a parte difícil: tentar alinhar as rodas com os troncos (desta vez a sério!). Prova superada. Despedimo-nos de todos os nossos amigos recentes e seguimos viagem até ao Gurué, já às escuras praticamente o caminho todo.

Agora vem a parte interessante: cheguei ao Gurué e descarreguei os dados do GPS para o portátil. Ao todos, fizemos 37 km (!). Muitos deles a correr. Relembro que uma maratona são 42 km…

O mais engraçado é que a minha cara-metade me tinha desafiado no dezembro anterior para ir fazer a meia-maratona do Porto, ao qual eu “educadamente” recusei. Preferi correr 37 km em Moçambique, à chuva, com a roupa encharcada, de botas de mato a e saltar cobras!”


Testemunho de Pedro Pereira: Licenciado em Engenharia Civil na especialidade de Geotecnia, o Pedro faz parte da família do GEG desde 2005.  Atualmente desempenha as funções de Gestor de Projeto, integrado no Departamento de Geologia e Geotecnia. Saiba mais sobre o Pedro, aqui.

 

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